Archive for junho \24\UTC 2009

Viés

junho 24, 2009

Eu ouvi dizer que em algum lugar da Alemanha, talvez também na Escandinávia ou algum país nórdico, existe o seguinte fenônemo sensacional: as pessoas discutem idéias sem xingar a mãe de ninguém. Parece fascinante.

Eu mesma, em Bruxelas, uma vez, participei de uma discussão que não terminou em briga pessoal. Foi uma experiência suis generis: a gente discordou, argumentou, contra-argumentou, continuou discordando e, depois, continuou bebendo vinho e rindo. E, prestem atenção: eu estava na defensiva e não fui xingada de “radical”, “impaciente” ou “arrogante” uma única vez. Até hoje, rememoro tal acontecimento com a mesma incompreensão com que abordo certas questões sem resposta (i.e.: “chegaremos a ter games narrativamente complexos?” ou “de onde emerge a consciência?” ou ainda “por que o Flamengo, sempre que pode ganhar, perde e sempre que tem tudo pra perder, ganha?”) 

Digo isso porque, em solo latino, não me recordo de ter tido alguma discussão que não tenha terminado quase no tapa e, no mais das vezes, com alguém me xingando de arrogante ou radical. “Impaciente” eu aceito de bom grado — também sou preguiçosa, dorminhoca, ansiosa, tenho rinite alérgica e tendências depressivas, já que é pra listar alguns de meus inúmeros defeitos. Mas “arrogante” e “radical” eu custo a aceitar… Até porque “radical” me parece mais um termo superficial para “aquele que tem idéias”. Ou seja: se você defende, de fato, algum argumento, aí é “radical” (porque o “normal” é não defender nada além do senso comum). E “arrogante” costuma ser, aqui, aquela pessoa que mostra suas credenciais em algum momento.

Por exemplo: na época da eleição do Lula para o 1º mandato, cheguei a ouvir “ixe, essa aí é PT radical”. Porque, claro, no âmbito da mesa de bar, em SP (diga-se de passagem), ousar dizer que o Lula não é um sapo barbudo, naquela época, era ser radical. Ao mesmo tempo, ousar proferir que sou doutora em comunicação quando alguma abóbora selvagem está sendo dita sobre mídia ou cinema é, automaticamente, pedir para ser chamada de “arrogante”.

O legal é o seguinte: se um médico te diz que o rim funciona assim e assado, você não diz, “ah, mas eu acho que não”, afinal, você é leigo no assunto. Mas se o assunto é do senso comum, as pessoas se arrogam o direito de proferir qualquer bobagem (muitas vezes extraídas de uma matéria do Fantástico que, por algum motivo estranho, elas julgam que ninguém viu e só elas sabem). E você, conhecedor credenciado de assunto A ou B, não pode por ventura lembrar seu interlocutor que você já estou aquilo ali de verdade, pois, misteriosamente, o arrogante será você.

Não, eu não estou dizendo que sou a pessoa mais fácil do planeta para ter como interlocutora em algum assunto polêmico. Mas eu também custo a acreditar que seja a pior. E estou começando a desconfiar que parte do “problema” dos outros tem a ver com um certo nível de exigência na argumentação. Não me venha com clichês. Não me venha com “é porque é”. E, por favor, não ache que minha discordância tem algo de pessoal. Podia ser o Papa, meu pai, meu orientador, o Martin Scorsese falando; eu iria manifestar minha discordância. 

Desconfio que o episódio de Bruxelas se deu como se deu por causa do meu interlocutor: ele era melhor que eu. Quando dizia algo que sabidamente despertaria polêmicas, não se abalava com meu olhar de desespero. Ao contrário, antecipava-se a mim: “eu sei que você vai dizer tal coisa, mas não estou indo por esse caminho e sim por este outro”. E isso tudo colocou a discussão outro patamar, de respeito mútuo.

A pergunta que fica é: o que eu posso aprender com esse meu interlocutor (um brasileiro filho de alemães)? O que EU posso fazer para elevar a conversa? (… suspiro profundo…)

Ponto

junho 23, 2009

Curto e grosso: professor ter que sair de sua casa, atravessar a cidade (+- 22km daqui do cafofo), para assinar “o ponto” — quando as aulas já terminaram, não se vê um aluno num raio de mil quilômetros e as reuniões de planejamento são noutro dia — é de uma imbecilidade sem fim. Sobretudo numa cidade como São Paulo, onde um carro a menos na rua faz muito bem ao meio-ambiente e ao trânsito…

(Sorry, sorry, reclamações, reclamações. É que se tem uma coisa que me deixa louca é burrice. Sobretudo quando a burrice é também mesquinha. Na linha: “olha, se a gente tem que se phoder e dar expediente, vocês também vão ter que dar”. E o que mais me surpreende é que só uma meia-dúzia de chatos crônicos — como eu — diz alguma coisa. O resto acha a coisa mais natural do mundo sair de casa, cruzar a cidade, assinar um papel e não fazer mais porra nenhuma. Porque, afinal, esse povo já faz o favor de nos “dar” um recesso de fim de ano, enquanto todas as pessoas normais do mundo trabalham 11 meses. É. Eu acho que professor tem vida fácil. Ok, gente, vocês venceram, somos uns folgados.)

Final de Temporada

junho 20, 2009

Nos bastidores, ainda há bastante trabalho a ser feito, mas o episódio final da temporada de A FiRma foi ao ar esta madrugada. E foi fantástico. Explico: foi a festcheinha de exibição dos curtas dos nossos pupilos do 3º semestre. Nesse semestre, eles sempre armam um evento para exibir todos os curtas, com uma festcheinha depois. Nesta versão (não fui às anteriores e hoje me pergunto por quê), teve o ultra-aguardado show da banda W h i t e B a l a n c e and the B i g N o i s e (espaçamento estranho na tentativa vã de que meus alunos não cheguem a este blog googlando o nome da banda; honestamente, não sei se funciona), composta por um aluno, um professor e dois técnicos. Imperdível, só por essa formação.

E, realmente, foram alguns dos momentos mais divertidos dos últimos tempos. Ver no mundo real aquela pá de gente que você só vê na fiRma é muito interessante. E vê-los bebendo cerveja, melhor ainda. Os alunos se divertem muito em nos ver como gente (eu sei que eu me divertiria muito na época deles). Particularmente, ver os alunos comemorando a jornada de um semestre foi algo muito gratificante. Muito. Eles estavam eufóricos, dava para ver nos olhares a sensação de missão cumprida, de que cresceram, venceram etapas, viveram. É o que vale a pena neste raio de profissão (de que eu gosto muito, cada vez mais, o que phode são as condições precárias), ver essas criaturas crescerem sob nossos olhares, com nossa mínima participação, que seja (é uma honra e um privilégio — também uma ENORME responsabilidade — participar de um processo assim).

Lá no Mundo Civilizado, esses eventos sociais de final de semestre são muito comuns, pois a universidade forma uma comunidade. Não é que professor seja amiguinho de aluno — como às vezes é o caso aqui — mas existe o entendimento de que o que está em jogo é a formação de pessoas e não uma mera relação comercial. Então, ontem, foi algo muito civilizado, no melhor sentido da palavra, ter a oportunidade de vê-los ali, de fechar o ciclo, de conhecer esposas, pais, de vê-los fora das fronteiras da turma do semestre tal.

É isso que me entristece, frusta, desanima, às vezes exaspera no atual estado de precariedade do país: como deixamos de fazer tanta coisa boa por absoluta falta de condições. Ontem mesmo, eu quase não fui, depois de duas jornadas seguidas de 12 horas de trabalho, mais o stress do furto do estepe, ter que sair da fiRma às 23h20 (!!!) e cruzar a cidade (mais de 20km!!!) para ir ao evento… Eu reclamo porque sou reclamona, antes de tudo, mas porque a cada segundo enxergo algo que podia ser feito melhor e que nós — TODOS — deixamos de fazer, em nossa “ética” da “farinha pouca, meu pirão primeiro”, de “empurrar com a barriga”, de fazer “nas coxas”, jogar o problema pro outro…

Ontem, ainda sob a chateação do furto, perguntava retoricamente aos alunos: será que algum de nós aqui vai viver o suficiente para ver o Brasil deixar de ser uma terra de bandidos e/ou de um povo individualista, que só se preocupa com o próprio umbigo ou, no máximo, com alguém que conhece pessoalmente? Minha resposta, na hora, infelizmente, era “acho que eu não vou”. Mas, depois do show, fiquei mais esperançosa… Sei lá, vai que essa nossa capacidade espontânea de gerar ruído ganha massa crítica em algum momento e algo bom começa a surgir?…

Welcome do Brazil

junho 19, 2009

Para desabafar: em menos de vinte dias, meu pobre Rocinante já teve sua primeira (e, infelizmente, provavelmente não será a única) desventura: o estepe foi roubado de dentro do porta-malas ontem à noite, provavelmente enquanto esteve estacionado na rua (ora, que ingenuidade da minha parte, estacionar um carro numa via pública!!!), em frente à Fnac de Pinheiros, à noite. Pior: junto com o estepe, foi também meu casaco da Gap, recém-adquirido em Paris.

Este, obviamente, é um problema mínimo (diante de tantos outros que conhecemos cotidianamente). O ladrão, aliás, foi um gentleman: não causou danos ao carro, deixou ou pino de prender o estepe e o guarda-chuva, não arrombou o carro propriamente dito e, de mais a mais, deve apenas ter bom gosto, pois o casaco era realmente muito bonito (e a noite estava fria).

O problema de segurança pública no Brasil é mais um daqueles que deixa patente a negligência do Estado. Para além daquilo que reflete os problemas muito, muito, muito maiores deste cada vez mais triste país, poderia ser bem melhor encaminhado com um pouquinho de boa vontade das otoridade (alô, polícia melhor paga? alô, combate à corrupção? alô, combate às MÁFIAS DOS ESTACIONAMENTOS???).

Mas, afinal, as otoridade paulistanas não sabem o que é ter seu carro furtado numa via´pública, pois, para eles, parar o carro na rua há muito tempo é algo inimaginável. E eu, agora que resolvi brincar de ser classe média paulistana, além de pagar IPVA, seguro e, só para dormir e trabalhar, quase R$300 de estacionamento, terei que me tornar uma dessas paulistanas de-tes-tá-veis que acha muito natural pagar R$15 por noite.

*

Meu… eu tô tão P da vida com o furto do casaco… Pô… há anos eu procuro um casaco assim, meu!… Que merda de país… o pi0r dos dois mundos! Não se pode viver no espaço público, nem se pode ter nada… Não se pode carregar uma roupa de frio no porta-malas do carro, cara! Que coisa precária! E burra! Tudo se paga: paga-se o carro, pagam-se os juros, pagam-se imposto escorchantes, paga-se alarme, paga-se o guardador, paga-se estacionamento… Trabalha-se muito, ganha-se pouco, vive-se mal. É… tá ficando difícil justificar a permanência aqui…

Ê, Brasil…

Tá brabo!

junho 19, 2009

E falando no assunto, taí um ótimo motivo por que diploma não deveria ser necessidade: lembra a matéria da Bravo com meus amigos cinéticos? A pois… tem nível tão baixo que chega a envergonhar. Mas é melhor vocês lerem a carta de dois dos “entrevistados”.

Pra mim, surpresa alguma. Não compro a revista há muitos anos, comprei esse exemplar para ver a matéria com os amigos — e estranhar logo de cara os erros factuais GROTESCOS — e também pela indicação do livro dum leitor deste blog (mas, confesso, pela indicação do livro nem carecia, porque eu certamente não preciso da Bravo me dizendo isso — e espero que quem ali indicou entenda mais de literatura do que o pessoal do cinema…).

Como disse, surpresa alguma. A Bravo, há muito (se não desde sempre) é — com possíveis exceções pontuais — uma revista de verniz cultural, feita para uma elite cada vez mais burra e ignorante se sentir incluída. Trata da cultura oficial, cultura-como-consumo-chique. De audiovisual, que eu me lembre, nunca foi escrita uma única linha interessante. Nem vagamente interessante.

*

O episódio da “Nouvelle Vague brasileira” só foi mais emblemático porque dali eu conheço fatos que me passariam ao largo numa matéria sobre pessoas mais distantes. É um triste exemplo do desvio patológico da profissão regulamentada de jornalista: uma costura frouxa de fatos e ficções palatável apenas ao consumo de leitores cada vez mais ignorantes. Não à toa, não existe mais um único veículo impresso que sirva, de fato, de fonte de informações, pior ainda de crítica. Sobre cinema, não há veículo oficial que cumpra o papel que as revistas independentes online cumprem. 

Aliás, do meu conhecimento (que certamente não é total, nem poderia), existem duas revistas ainda misteriosamente merecedoras da alcunha de “bom jornalismo” (se é que tal expressão não se tornou um oxímoro): a Carta Capital e a Cult (mas não tenho certeza absoluta sobre essa última, pois só a leio ocasionalmente). A Caros Amigos também, talvez (embora incorra num certo tom “esquerdista” denuncista demais até pra mim).

(A questão fica óbvia: o diploma de jornalista é a cereja do bolo de uma instituição falida — o jornalismo. Precisa ser reinventada e, ao que tudo indica, os menos competentes para isso são os jornais e seus funcionários. Do alto ou do baixo escalão, não importa.)

Canudo (não vou fugir do assunto óbvio)

junho 18, 2009

Meu diploma em jornalismo já não servia rigorosamente pra nada (minto: ainda serve, espera-se que por pouco tempo, para me garantir aquela cela especial quando eu matar alguma toupeira não-sapiens num belo dia de surto). Agora, então?…

Mas, só para que conte minha importantíssima opinião sobre o assunto: num mundo um pouco civilizado (Brasil? Não!), jornalismo nem devia ser bacharelado, devia ser pós e/ou formação técnica. O cara devia fazer uma formação em humanidades, mesmo em comunicação lato sensu, e fazer umas cadeiras em jornalismo ou uma pós.

Aliás, num mundo civilizado, a pessoa não entra numa faculdade para fazer um curso (cada vez mais) específico: vai fazendo uma formação básica e um pouco mais pra frente escolhe um major (e, a depender da carreira, tem que fazer pós obrigatoriamente). No Brasil, contudo, daqui a pouco as universidades privadas (com a conivência do MEC) oferecem bacharelado em Hotelaria para Pousadas de Um Andar Na Praia, Gastronomia de Pratos Vegan, Comunicação Coorporativa para Surdos, Turismo Aéreo ou, quem sabe, antes da decisão do STF, Jornalismo Eletrônico para Blogs.

Num mundo não muito civilizado (i.e., nosso país), o que a gente teme é que as redações dos jornais aproveitem o chute no balde para, finalmente, contratar analfabetos completos, seres tão inaptos que poderão ser moldados a seu bel prazer para escrever (escrever?) qualquer coisa que sejam mandados. Pensando bem… isso já acontece, então… ‘xa pra lá.

(Agora, o ministro Lewandovski disse que diploma só deveria ser obrigatório para profissões que exijam o domínio de “verdades científicas”. Isso deveria incluir (ou melhor, excluir) a profissão dele, portanto. Afinal, nada menos científico do que esse negócio chamado “Direito”. Né???)

Not!

junho 11, 2009

And yet another NO… 

Fico

junho 8, 2009

Então: depois de muita conversa, minha amiga decidiu não prestar o concurso. Não é o momento, ela ainda tem muito o que fazer por aqui e/ou fora do Brasil e haverá outras oportunidades. Ela agradece muito, muito, muito a todos que, querendo apenas o seu bem, deram suas opiniões. MESMO.

***

Agora, é hora de (re)começar a fazer e/ou colocar em ação planos para o futuro-não-muito-distante. Coisas comos congressos para o 2º semestre ’09/ 1º semestre ’10, começar a avaliar a possibilidade de um pós-doc (aqui ou fora) e voltar a pensar em projetos “práticos”. O mês de junho vai ser muito chatinho para o pensamento — não tem poder de abstração que sobreviva ao ritual mundano das notas de final de semestre — mas o deadline da Intercom é dia 30, então, minha fílea, sebo das canelas intelectuais. (Ainda bem que eu gosto de escrever — aliás, se não gostasse, só sendo maluca para optar por ser pesquisadora. NÉ?)

His space

junho 8, 2009

Ainda work-in-progress, mas agora com novo lêióuti e informações (e três canções ainda em progresso):

Tetris faz 25 anos

junho 6, 2009

Foi o que o Google me lembrou.