Cut some slack

Se eu tivesse um cromossomo Y, vou te dizer como seria minha vida neste momento: estaria enfurnada na Mostra, como estão todos os meus amigOs cinéfilOs. Depois, iria beber cerveja e conversar sobre a Mostra com meus amigOs cinéfilOs.

As namoradAs cinéfilAs não estão enfurnadAs na Mostra. Elas estão indo nos almoços de família, estão acompanhando namoradOs não-cinéfilos em eventos diversos da vida, estão tendo uma vida razoável e ponderada. E, a melhor parte: ainda são chamadas de chatas quando não se dispõem a fazer isto ou aquilo. As (ex-)cinéfilAs com têm filhos, então… coitadas. São ex-cinéfilas. Imagina se é possível justificar para um filho — aquele ser cujos desejos são e devem ser o centro do planeta — que passar um fim de semana inteirando-se do que de melhor foi feito no cinema mundial é algo razoável e ponderado!…

Em horas como a desta constatação, percebo que devo ser A) um ser insuportável e/ou B) um ser muito diferente. Para qualquer um das opção, preferencialmente as duas, continuo sonhando com a possibilidade de achar Meu Lugar No Mundo. Um lugar onde, por exemplo, quando o XY fizer a cama e o café, isto não seja automaticamente considerado uma Bênção Dispensada À Humanidade, enquanto o fato d’a XX fazer o jantar seja Apenas Sua Obrigação. Ou onde seja possível as pessoas escolherem o que querem fazer, sem ter que pedir descupas pelo Desvio Da Normalidade. Deve existir esse lugar. (Talvez se chame Europa, não sei ao certo. E mesmo assim só em alguns recantos. Certamente nem a Itália nem a maior parte da Península Ibérica. Possivelmente também não certos países dos Bálcãs. Talvez Paris. Londres. Alemanha.)

Mas a maneira da mulher brasileira, cordata, razoável, ponderada, é a seguinte: ir tomar duas pílulas de stressdoron. Porque é óbvio que a errada sou eu. É óbvio que dormir e acordar tarde num feriado é coisa de gente doida. É óbvio que contemplar o desejo distante de ir à Mostra é um absurdo (vejam: eu sequer levantei essa alternativa; aí provavelmente jaz o meu erro). E, sobretudo, a culpada de todos os males num raio de 100km sou eu, porque estou na TPM, essa falha injustificável da natureza feminina, que deve ser, na melhor das hipóteses, *perdoada* pelos seres irrepreensivelmente superiores, os XY.

(E, não: eu não sou feminista)

2 Respostas to “Cut some slack”

  1. Pedro Says:

    Olha, a gente precisa conversar 😉

  2. karen cunha Says:

    Eu adorei este post!
    Durante muito tempo minha vida e de todos no meu trabalho foi regada a Ansiodoron. Daí a Welleda fez o favor de tirar do mercado e agora um quer comer a cabeça do outro. Caí aqui pq estava querendo saber se o Stressdoron dava sono…
    Meu trabalho consiste em ir ao cinema e ver filmes quase todos os dias e te garanto que isso também é irritante.
    Mas você deveria fazer um pacote daquelas locadoras virtuais que entregam em casa e ser feliz pelo menos 3 x por semana antes de dormir. E quando quiser ir a Mostra pesquise primeiro o que vai sair no circuito comercial e evite assim ouvir conversa chata de fila. Escolha aqueles filmes que nunca vão sair no cinema, deixe uma caixa de stressdoron pro seu marido e se jogue com os seus amigos! Vc vai voltar de bom humor e ele vai agradecer depois…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: