Stressed out

(Disclaimer: sim, este blog tá um desfile de lamentos, tristezas, reclamações, desabafos. Mal aê. Não estou assim porque quero. Desabafo aqui porque sinto que é um dos poucos canais que tenho — e se não desabafar, aí, sim, vou surtar de vez. E é um desabafo para mim mesma, antes de tudo. Qualquer público que angarie é lucro.)

Não sei como explicar isto de outra forma: estou muito perto de surtar. Pode parecer pouco — bem, talvez seja pouco, sei lá — mas 20hrs em sala de aula (mais sei-lá-quantas orientações e burocracias escolares, para dizer o mínimo) têm me esgotado física, psicológica e intelectualmente. Este é pelo menos o 4º semestre nessa toada, entre 4 e 6 disciplinas diferentes ao mesmo tempo, somando entre 16 e 20hrs semanais dentro de sala.

Vejam, não é apenas que 20hrs em sala de aula = por baixo, por muito baixo, outras 20hrs preparando aula, inventando aulas novas do nada, corrigindo trabalho, preenchendo diários e outras papeladas, selecionando trecho de filme… É que depois de 20hrs em sala de aula, mais outras 20hrs preparando aula, não tem como espremer mais nada da minha cabeça ou do meu corpo.

Daí que, este ano, eu não consegui emplacar um único artigo decente e, por conseqüência, não consegui ter motivo para pedir pelamordedeus às otoridade que me pagassem pra ir a pelo menos 1 dos 3 congressos de porte da área. Enquanto isso, aventureiros menos competentes emplacam textos, livros, viajam… E eu vejo o bonde passar, que é o que mais me agonia.

Porque se fosse uma questão de tempo, acho que não sofreria tanto. Se eu soubesse que este trabalho insano serviria para algo — e não apenas para acelerar a perfuração da parede do meu estômago com uma úlcera — eu respiraria fundo, tomaria vitaminas, faria uns cálculos estratégicos e seguiria adiante. Mas não é o caso: não há indícios de luz no fim do túnel at all, muito menos a curto prazo.

Não sei se aguento sequer mais um semestre assim. Ora, um semestre… Não sei se chego inteira ao final deste (porque, claro, ao final do semestre as coisas pioram e, além das aulas, há correção de trabalhos, bancas de TCC, relatórios de pesquisa — pesquisa dos outros, que fiquem bem claro — notas a dar, alunos que nunca pisaram em sala surgindo das trevas e reclamando isto ou aquilo…)!!!

Eu juro que tento não pensar nos meus colegas estrangeiros apenas 2 ou 3 anos mais velhos que eu e que, hoje, dão 8 horas em sala de aula por semestre, ganhando 3 ou 4 vezes mais que eu, com estabilidade, para pesquisar o que amam e, como conseqüência disso, viajar o mundo apresentando os frutos de seu labor. Juro que tento não pensar, mas é impossível e fico com a crescente sensação de que estou perdendo irremediavelmente o bonde da História. Pior: da MINHA História…

Tem que ter algum outro caminho, mas de fato não consigo enxergá-lo sequer vagamante neste momento. Acordo pensando em fazer pós-doc ou mesmo um novo doutorado fora do país; almoço (quando almoço) achando que o melhor caminho é fazer concurso para a UFC (se é que ainda haverá vagas) e janto (quando janto) sem saber mais se quero casar ou comprar uma bicicleta, de tão ansiosa e exausta que estou.

Pode parecer complicado de entender e eu vou dizer uma coisa bem boçal: eu não nasci para mediocriade. Leio as melhores publicações da minha área e tenho cer-te-za de que posso fazer igual ou melhor (inclusive, já fiz: quando tive condições para isso, emplaquei um artigo que foi eleito um dos 5 melhores do maior congresso internacional de games, onde eu era a única brasileira, ao lado apenas outras sulamericana; aliás, sabem o que aconteceu com a sulamericana? Emigrou pro Canadá e não dá 20hrs em sala de aula…). Mas pesquisar, escrever, pensar não é coisa que se faça com qualidade nestas condições. Não é trabalho braçal. Não é emprego, é vocação. E eu não sei mais o que fazer para conseguir a chance de seguir adiante com a minha.

Tenho tido com freqüência enxaquecas latejantes, estou com um buraco no estômago, uma possível síndrome do intestino irritado, tenho duas dúzias de exames a fazer (e sequer tenho tempo/disposição para isso!) e preciso apenas sobreviver até o fim do semestre (loooongo mês e meio) até poder desfalecer em solo cearense. Talvez eu devesse mesmo fazer concurso lá, mas também nem sei bem o que me esperaria: pelo último depoimento de um colega, soube que ele estava trabalhando horrores e ainda tinha que morar numa terra de referências culturais paupérrimas, que é algo que me põe em pânico (e a ela também!)… Pelamordedeus, entendam: não se produz pesquisa sobre arte no vazio. Já é complicado falar de games no Brasil, em Fortaleza, então… A única chance de alguém como eu sobreviver em Fortaleza é se sobrar muito tempo e dinheiro para viajar MUITO. Se não, é trocar seis por meia-dúzia e morrer de inanição cultural.

Sério. Muito sério. Deve ser complicado de entender que, para mim, cinema, arte, video games, literatura, festivais, livrarias muito, muito boas, acadêmicos de ponta em quantidade…não são apenas plus, são necessidades. Eu não vou à Mostra por hobby, eu pre-ci-so estar a par do estado da arte do audiovisual mundial. Eu não vou à Livraria Cultura apenas passear, eu vou esbarrar com um livro sensacional sobre algo que possa iluminar minha pesquisa. (Digo isto porque tenho percebido que é algo distante de pessoas até muito próximas. Gente que amo e admiro, mas para quem essas atividades ‘culturais’ não passam de lazer. Nada errado com isso, nada mesmo, mas tenho sentido falta de ter por perto amigos que compreendam melhor a minha vida e que, portanto, sejam capazes de entender o quanto ando sofrendo com essa mediocridade em que ando inserida forçosamente…)

8 Respostas to “Stressed out”

  1. Fabrício Says:

    Melhor seria escrever um post em resposta do que um comentário, mas fico no comentário mesmo. (Acho o que me move a escrever é a idenficação, por mais distante que possa parecer). Eu sou publicitário, Renata. Ou melhor, como disse um grande amigo, dublê de publicitário. Todos os dias reservo oito horas pra ficar na frente de um computador ou em reuniões com “gente brilhante”. Conto os minutos pra largar do ofício e essa contagem deixou de ser regressiva há tempos.
    Cada aberração que ouço e que me forço a fazer parecer cotidiana diminui uma hora da minha vida e mata um Panda na Índia. No rumo em que estou, eles vão se extinguir.
    De minha parte, ainda pensando no melhor dos mundos, as conclusões são pessimistas. Sou um caos em organização. Olho pra vida e só vejo acúmulos. Vejo justificativa para estar em todos os projetos que participo e sinto que não estou em nenhum deles ao mesmo tempo.
    O relato serve a pensar se não é um contexto histórico e o que está além de qualquer força. Não pra aceitar, mas pra entender que estamos (arrisco o plural) no limite do nosso possível. Eu também não suporto a ideia de ter úlceras. De acabar com o meu corpo por algo em que não acredito.
    Ah, não estou chegando a lugar nenhum. Mas registrei o comentário.
    Abraço

  2. Fabrício Says:

    Ainda sobre o mesmo assunto (foi-se minha concentração da tarde), nos últimos tempos ando só relendo coisas. Procurando parar e não acumular mais (o que me parece impossível). Um dos textos que me forcei a reler é de um autor chileno, chama-se Guillermo Calderón e o texto se chama Clase. Ele produziu uma conversa entre um professor e uma aluna, que acontecia enquanto os alunos estavam na rua marchando por um ensino mais democrático (boa parte do ensino do chile é privatizado). Mas nesse trecho que reproduzo abaixo, ele fala desse “potencial”, que hj parece ser mais um fantasma e uma chaga do que efetivamente algo que me empurra pra fazer algo. Nem traduzi:

    Esto se decide aquí, en esta relación. Yo te muestro el camino en el bosque. Para que seas alguien. Para que seas feliz. Para que ganes plata. A mí me encargaron eso. A mí que soy nadie. A mí que he sido infeliz y que no tengo plata. Todo lo que te he enseñado es lo que yo creo que podría resultar. Pero para ser honesto, no sé. Pregúntale a alguien que haya sido feliz. Te quiero pedir perdón por haberte enseñado que la tierra gira alrededor del sol. Que se yo, nunca lo he visto. Yo miento, te he mentido. Te dije que si uno se esfuerza y trabaja duro puede lograr todo en la vida. Bueno, no es así. No es así. Hay gente que se esfuerza y trabaja duro toda la vida y no logra nada. Ni el esfuerzo, ni la responsabilidad, ni ser optimista sirven. Porque yo fui así y mira como terminé. Siento como que fracasé. Tenía planes pero como que no resultaron. A veces uno echa dos tazas de harina, un par de huevos, mantequilla, azúcar, un poco de sal, el horno caliente… Y no resulta. No resulta. A veces no resulta.

  3. Balla Says:

    Gata,

    nem sei o que te dizer. Talvez só que você não está sozinha no barco. Que eu entendo o suplício de 40 horas semanais, se bem que adoraria, como você, poder produzir metade delas na minha casa. Mas eu convivi o suficiente com o mundo da academia para não ter nenhuma inveja de você, porque eu bem sei que a mediocridade, o povo uó, tá espalhado em todo canto, disseminando suas mesquinharias. Por outro lado, você pode viver em um ambiente de estudo, enquanto eu tenho que dedicar outras tantas horas pra aprender algo novo. Mas enfim! Nem era disso que eu queria falar…

    Quero só te dizer que tem umas coisas que não se encaixam!!! Como pode? A semana tem 168 horas. Se a gente gasta 40h no trabalho + 56h dormindo (embora eu não lembre quando tive direito a 8h de sono) + 30h entre refeições e banhos = 86 horas. Cadê as outras 82h? Mesmo que a gente perca duas horas no trânsito todos os dias, ainda ficam faltando 68h. Eu que estudo ainda fico sem essas 8h aí. Mas cadê as outras 60h? Roubaram? Por que eu tenho a impressão que minha vida é absorvida pelo meu trabalho, se ele ocupa só 25% do meu tempo? Eu nunca fui boa de matemática e continuo sem entender essa conta aí.

    E sabe o que é pior? É a gente ter que fazer um esforço danado, um malabarismo do cão, para conseguir um tempinho que se transforme em algo bom para a gente, como fazer massagem ou acupuntura, passear com o cachorro no parque, fazer exercício físico, praticar uma yoguinha, tomar uma com os amigos, assistir a um filme, essas coisas leves que nos fazem tão bem.

    E fica a sensação que o bonde saiu da estação e a gente ficou lá sentadinha no banco, porque as pessoas “in” são lindas, bem vestidas, fazem tudo que gostam, têm tempo pra tudo, são inteligentes, têm a pele ótima e além de tudo não suam uma gota para conseguir tudo isso. E aí? O erro é meu? Onde? Que eu posso fazer pra mudar? Cadê minha fada madrinha?

  4. Balla Says:

    E eu entendo que a livraria cultura e o cinema não é só distração pra você, tá? Comprar livro também não é para mim e não deveria ser para ninguém…

  5. danilo Says:

    dr., ainda que não pareça, será que as pessoas as quais você vê no cinema ou na livraria cultura não estão lá por motivos parecidos ou idênticos aos seus? será também que essa própria falta de motivo que te força a perder oportunidades não é a mesma que te impede de conhecer gente até do seu meio profissional? há posições de onde tudo parece quase impossível.

  6. dr. strangelove Says:

    queridos, de certo modo, pelo menos neste 3º (ou 13º?) mundo, estamos todos no mesmo barco, que faz água há tempos. sem sombra de dúvida, há histórias muito piores que as minhas, que as nossas.

    contudo, a vida urge e é preciso tomar decisões. balletions, também acho um privilégio trabalhar algumas horas em casa, tem só um detalhe: por essas 10, 20h a mais que trabalho, eu não ganho. ganho as horas em sala de aula, mais outras por outros afazeres e só. e ganho mal. e nem posso mais dizer que ganho em experiência, pois esta agora é repetitiva, é braçal, é mal-feita, porque não há como fazer bem feito. e leva ao acúmulo também da frustração de saber que, em 80% dos casos, eu poderia ter dado uma aula melhor, uma orientação melhor, se ao menos me fossem dadas condições.

    daí, para além da sensação pessoal de fracasso, o que me atinge e muito é pensar o brasil como este lugar do cronicamente mal-feito, porque foi o jeito que deu, mal aê, passa amanhã.

    penso seriamente em emigrar. talvez seja a maior parte do sofrimento, bancar os próprios desejos. seria mais fácil não tê-los.

    ah, balletions, mesmo sabendo que você, como todos os que comentaram, certamente não compra livros apenas por lazer, mantem-se a diferença. como é que, estudando cinema, se vive numa cidade que não tem cinema? para alguém que trabalha com outra coisa, é sofrido. para mim, é suicídio intelectual. vale para os livros e para o resto também. mas talvez requeira outro post.

    danilo, não sei se entendi tua questão. ou, pelo menos, eu sempre me abri para conhecer pessoas nesses lugares. não teria sobrevivido se não o tivesse feito. sou tímida e introspectiva. e puramente lezada também. mas sempre acreditei nos encontros.

  7. p. Says:

    o meu sem força não me deixa nem conversar sobre isso, doc, de tão esgostado que ando. sem paciência, sem sorriso, sem alegria alguma, longe dosamigo, sem acreditar em nadinha nadinha nadinha, nem do lado nem à frente nem no meio da cabeça rachada. dá notícia aí, doc, pra gente esticar a prosa um pouco, de fato.

    besitos.

  8. Socorro Acioli Says:

    Renata, é uma questão de personalidade e adaptação. As coisas por aqui não vão mudar tão cedo. Nem em Fortaleza, nem em SP. Daí você tem duas alternativas: ou se conforma ou emigra. Conformar-se com a mediocridade quando não se é medíocre é matar um monte de coisas (sonhos, talento, possibilidades).
    Sendo assim: emigre. É meu conselho simples e direto. Você PODE emigrar e sabe disso. Sim, existem coisas a acertar, mas não que te impossibilite – como ter filhos pequenos, por exemplo, ou não saber falar uma língua estrangeira.
    Vai sem medo, Renatinha, que eu quero ver esse blog cheio de novidades do primeiro mundo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: