Hexa!!!

Hexagera, Mengão!!!

Ah, se vocês soubessem a saudade que me deu do papai com essa (sofrida) vitória rubronegra hoje… É irônico demais que eu seja rubronegra por causa dele e que, agora, ele não esteja aqui para dividir comigo — ou eu com ele — o sexto título nacional do Flamengo. No último, eu tinha 17 anos (foi, portanto, há 17 anos!) e, conquanto importante, não foi a mesma coisa. 17 anos de sofrimento depois, que o diabo do time tenha finalente chegado lá, pouco mais de dois meses depois da morte dele, logo num domingo em que o Flamengo ganhou… dói demais.

A vida não tem a mais vaga lógica. Nós é que tentamos dar a ela algum sentido, às vezes, com algum sucesso. Tá muito claro. E eu, que não acretido em Deus ou qualquer coisa do gênero, me agarro desesperada àquilo que mantém meu pai vivo em mim. O Flamengo é uma das coisas mais fortes; agora, mais do que nunca. Sou flamenguista por ele: não tanto porque ele tenha me canonizado assim, deliberadamente, mas por puro amor de ver aquele flamenguista feliz quando o flamengo ganhava. Flamengo = alegria = amor, portanto. E muito cedo eu passei a amar, verdadeiramente, o rubronegro da Gávea.

O Zico foi um dos primeiros e maiores amores da minha vida. Taí a foto pra não me deixar mentir: eu devia ter uns… 6 ou 7 anos e lembro-me, ainda hoje, da alegria que foi tirar a foto com ele. Ele perguntou: “você torce pra que time?” e eu olhei pra ele e respondi, com uma cara de ‘dah!’: “Flamengo, ué!” Acho que ele esperava um “Ceará” ou “Fortaleza”, mas, ora… eu era Flamengo e o era de fato. Chorei de verdade quando o Zico foi vendido para a Udinese. Chorei de verdade quando ele foi tirado de campo numa maca na copa de 82. Chorei de verdade quando ele perdeu o pênalti em 86.

Meu pai era Flamengo porque foi criado no Rio. Quer dizer: filho de militar, nasceu no Mato Grosso do Sul e passou a primeira infância no Rio, torcendo pelo Fluminense (eu descobri isso aos 20 e tantos anos e quase morri do coração). Logo em seguida, vovô foi transferido para o Recife e papai se tornou fanático pelo Sport (na época, não havia Brasileiro). Quando voltou para o Rio, era um rubronegro tão fanático que não pôde voltar a ser tricolor, precisou converter-se flameguinsta e uma vez Flamengo… Quando eu nasci, anos depois, já não havia mais volta…

Quando a gente perde alguém tão próximo, as lembranças viram moeda rara. Uma das que cultivo é minha primeira ida ao Maracanã, em 1988, acho. Copa do Brasil ou algo assim, justamente um Flamengo e Grêmio. Fomos pras cativas de algum amigo do papai. Lembro-me bem dele, de blazer e camisa pólo, Ray Bans e tal. Subimos no elevador junto com o então técnico da seleção, Sebastião Lazaroni. Foi uma das pouquíssimas ocasiões na minha vida em que fiz algo apenas com eu pai. O Flamengo jogava pelo empate e perdeu de 2 x 0 (donde meu trauma com o Grêmio!). Jamais vou me esquecer da cara do papai, descendo de elevador, aos 40 do 2º tempo, me dizendo: “a gente ainda vai ouvir o grito de gol, ainda dá tempo…” Não deu. O Flamengo perdeu e foi desclassificado. Minha maior dor, contudo, mesmo naquele tempo, era a tristeza de vê-lo desapontado, por ter me levado ao Maracanã para ver uma derrota do nosso time…

Hoje, a saudade me dilacerou nesta vitória sobre o carrasco gaúcho. Se ele tivesse vivo, teria desligado a TV no gol do Grêmio. Teria tentando me convencer a desligar a TV também. Eu não desligaria (mas hesitaria) e acabaria ligando pra ele no gol do empate. Na virada, ligaria aos gritos e ouviria a voz dele meio contida, ainda desconfiada: “agora vai, agora vai!”. Quando o juiz apitou o fim do jogo, aos 48 minutos do 2º tempo, eu caí no choro (ainda deve ter gente achando que eu sou fanática!).

Flamengo campeão brasileiro, hoje, é a marca da ausência do meu pai no mundo. E a vida continua. Nunca mais a mesma, mas, tristemente, continua…

4 Respostas to “Hexa!!!”

  1. Sabrina Says:

    Oh, Renatinha.
    lindo demais seu depoimento!
    eu me identifiquei total pq tb sou filha de um torcedor fanático flamenguista e neta de outro fanático. meu avô faleceu no meio deste ano, eu só pensei nele e na ironia de sua morte logo no ano desta vitória que ele tanto desejou.
    meu pai ligou para mim “pralademarraquechi” já na hora do almoço. no fim do dia, ele chorava a saudade do pai e a vitória do time do coração. e eu acho lindo que eles sejam lembrados pelo amor (nem que seja a um time) e pelas lembranças de outros jogos que os uniram.
    depois de ler este teu post só pensei: em algum lugar, o vovô juca deve ter assistido ao jogo do lado do teu pai…

  2. Balla Says:

    Que bonito, Rê.
    Emocionei.

    Beijos, querida.

  3. Pedro Says:

    Ô, lindona, que bonito. Sou seu fã, viu? Beijocas mis!

  4. andre Says:

    Renatinha,
    Magnifico o depoimento. Fique certa que tinha um “cabeça chata”, eu no caso, te representando no MARACA nessa vitória do HEXA, explico: Domingo anterior, estava assistindo fla x “curintia” na casa do papai, com ele e o Baiminha (homi… lembra disso? rss!). Após a vitória, fomos direto para o cpu para marcar o voo, que já estava ficando caro! Logo em seguida me liga o pepe e o aneu (isso é formação de quadrilha!). Enfim, esses vagabundos e o seu amigo aqui foram ver a grande nação rubro negra no maraca. Foi minha estreia de mengao no maraca, já tinha visto um jogo (FLU X GRE- o Gremio de novo! Mas ele perdeu do fluminense de 1 a 0, gol de penalti). Sou melhor de jogos contra o gremio no maraca que voce rsss! E minha estreia com o mengão no maraca foi vendo ele sendo HEXA, AINDA COM GOL DO RONALDO ANGELIM, que é praticamente cearense e de um carater de jogador a moda antiga (a la ZICO! Sério mesmo).
    Renatinha, acredita que pensei muito nos meus amigos flamenguista na hora do fim do jogo, incluindo claro, voce!
    Foi uma festa linda mesmo e só hoje tive tempo para ler o que escreveu e te responder com alguma coisa.
    A propósito, manda pra mim via email teus contatos de novo, perdi todos meus contatos (O cara aqui da empresa “comeu coco” e fez uma atualizacao no meu celular e foi tudo pro espaco).
    bjão e saudações rubro negra!

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