Dos erros

Eu errei. Vi isso de forma cristalina. O erro foi meu. Todo meu. 100% meu. Não importa o que o outro fez. Também. Antes. Repetidas vezes. Pior. Não justifica. Meu erro não tem justificativa possível. Fugir do próprio erro é uma covardia a que eu não estou disposta – por algum motivo que não consigo explicar. Pelo menos neste exato momento, enxergo em mim uma enorme força pra mudar, mudar para o meu próprio bem e não para salvar seja lá o que pode ou não ser salvo, fruto desse erro.

Não sei de onde vem essa clareza, nem tampouco se ela é real. Mas o desafio, o diabo do desafio é justamente enxergar claramente. Enxergar claramente já é enfrentar o problema. Já é começar a mudar. Já um bom começo de um processo que, no entanto, só pode se dar um dia após o outro. Preciso não pensar além deste dia. Hoje, só por hoje, não vou pensar no desafio descomunal que se encontra a minha frente. Só por hoje, vou fazer o que está ao meu alcance, sem fugir. Eu não vou fugir. Eu não vou fugir. Só por hoje, eu não vou fugir.

Talvez esteja recorrendo num erro que cometi há uns 10 anos (e, em menor medida, algumas vezes depois). Mas sei que recorro apenas em parte, nem que somente por percebê-lo muito mais cedo. Não sei o que poderia ter feito – há 10 anos, quando percebi o erro que havia cometido, era tarde demais. Mas compreendi sua contradição intrínseca. O erro consiste em reclamar. Reclamar, reclamar, reclamar, como quem acha que, assim, implorando para o outro fazer alguma coisa, resolver o nosso problema, se está fazendo algo de bom para si, para o outro. É a história da vida da grande parte das mulheres que conheço: reclamar e ser chamada de louca, de histérica, de chata. Reclamar e esperar um gesto redentor e reclamar mais e mais e mais se ele não vem. E ele nunca vem. Mas… se não reclamar, faz o quê? Se a reclamação vem de uma frustração concreta, justa até, como agir? Eis a questão sem resposta.

Pois desta vez, novamente eu reclamei. Reclamei e reclamei e reclamei mais. Chorei, esperneei, confrontei, gritei. Alimentei a mágoa até o limite. Alimentei-a com dedicação. Com iguarias amargas, cozidas lentamente. Sempre esperando um gesto que a fizesse sumir. E – é óbvio – o gesto nunca veio. Não veio tanto porque o outro escolheu não fazê-lo, como também porque nunca poderia vir, porque não é um gesto do outro, de fato, é o gesto que eu quero que o outro faça. É um gesto meu no outro. E quanto mais se implora para que o outro faça, mais longe ele fica. É impossível. Ao mesmo tempo, novamente: a mágoa é real. Não alimentá-la é o que gostaria de aprender a fazer, mas, antes disso tudo, ela já é real, é concreta. Segue, portanto, a pergunta: o que fazer com essa mágoa?

Bom, pelo visto, não posso voltar a pensar no que fazer com a mágoa. Só por hoje, não vou pensar nisso. Só por hoje, não vou alimentá-la. Só por hoje, vou tentar tirá-la do meu corpo. Só por hoje, vou tentar fazer com que ela não seja a razão das minhas atitudes. Não sei se vou conseguir, porque ela está aqui ao meu lado. A frustração é muito grande, a vontade de ser surpreendida, de que o outro faça algo absolutamente maior é incontrolável. Como tentar não sentir o que se sente?

Sinto que preciso perdoar. A mim mesma, antes de mais nada. E ao outro. Não sei bem como fazer isso. Com o tempo, as mágoas arrefecem, mas isso não é perdoar, exatamente. É esquecer. Perdoar, me parece, demanda um processo ativo, positivo, de substituir uma paixão triste pela alegria do amor. Or something like that. Nada de cristão sobre isso, não me entendam errado. Não enxergo com clareza como fazer isso. Não enxergo mesmo. Sobretudo, não enxergo como perdoar, sem superar o outro. Sem fechar a ele os espaços dentro de mim. Isso também não é perdoar, obviamente.

A clareza do começo do post quer começar a se esvair. O pânico quer tornar a me dominar. Preciso me concentrar em ficar em paz. Não sei bem como…

2 Respostas to “Dos erros”

  1. paradoxosideral Says:

    Se me permite um exemplo: só consegui perdoar depois que fui muito feliz e tive tantas experiências, boas e ótimas, que já nem me sentia mais a mesma pessoa. Para perdoar eu fazia qualquer programa para me divertir que envolvesse dar risada: ler livro de piadas, ir ao teatro e cinema e só ver comédia, Show de humor etc. Como segredo: me sentir feliz mais tempo. A Fluoxetina ajudou muito no primeiro ano. Fazer yoga também ajudou e meditar ajudou mais ainda. Outra coisa que ajudou foi fazer análise lacaniana por três anos e depois parar, ajudou mais. Nada se comparou a passagem do tempo.
    Isso ficou parecendo receita de Marie Claire, desculpe. Mas espero que vc encontre seu caminho para superar isso tudo! Bjos.

  2. Anônimo Says:

    “O esquecimento é a única vingança.” (J. L. Borges)

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