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Dos erros

abril 14, 2012

Eu errei. Vi isso de forma cristalina. O erro foi meu. Todo meu. 100% meu. Não importa o que o outro fez. Também. Antes. Repetidas vezes. Pior. Não justifica. Meu erro não tem justificativa possível. Fugir do próprio erro é uma covardia a que eu não estou disposta – por algum motivo que não consigo explicar. Pelo menos neste exato momento, enxergo em mim uma enorme força pra mudar, mudar para o meu próprio bem e não para salvar seja lá o que pode ou não ser salvo, fruto desse erro.

Não sei de onde vem essa clareza, nem tampouco se ela é real. Mas o desafio, o diabo do desafio é justamente enxergar claramente. Enxergar claramente já é enfrentar o problema. Já é começar a mudar. Já um bom começo de um processo que, no entanto, só pode se dar um dia após o outro. Preciso não pensar além deste dia. Hoje, só por hoje, não vou pensar no desafio descomunal que se encontra a minha frente. Só por hoje, vou fazer o que está ao meu alcance, sem fugir. Eu não vou fugir. Eu não vou fugir. Só por hoje, eu não vou fugir.

Talvez esteja recorrendo num erro que cometi há uns 10 anos (e, em menor medida, algumas vezes depois). Mas sei que recorro apenas em parte, nem que somente por percebê-lo muito mais cedo. Não sei o que poderia ter feito – há 10 anos, quando percebi o erro que havia cometido, era tarde demais. Mas compreendi sua contradição intrínseca. O erro consiste em reclamar. Reclamar, reclamar, reclamar, como quem acha que, assim, implorando para o outro fazer alguma coisa, resolver o nosso problema, se está fazendo algo de bom para si, para o outro. É a história da vida da grande parte das mulheres que conheço: reclamar e ser chamada de louca, de histérica, de chata. Reclamar e esperar um gesto redentor e reclamar mais e mais e mais se ele não vem. E ele nunca vem. Mas… se não reclamar, faz o quê? Se a reclamação vem de uma frustração concreta, justa até, como agir? Eis a questão sem resposta.

Pois desta vez, novamente eu reclamei. Reclamei e reclamei e reclamei mais. Chorei, esperneei, confrontei, gritei. Alimentei a mágoa até o limite. Alimentei-a com dedicação. Com iguarias amargas, cozidas lentamente. Sempre esperando um gesto que a fizesse sumir. E – é óbvio – o gesto nunca veio. Não veio tanto porque o outro escolheu não fazê-lo, como também porque nunca poderia vir, porque não é um gesto do outro, de fato, é o gesto que eu quero que o outro faça. É um gesto meu no outro. E quanto mais se implora para que o outro faça, mais longe ele fica. É impossível. Ao mesmo tempo, novamente: a mágoa é real. Não alimentá-la é o que gostaria de aprender a fazer, mas, antes disso tudo, ela já é real, é concreta. Segue, portanto, a pergunta: o que fazer com essa mágoa?

Bom, pelo visto, não posso voltar a pensar no que fazer com a mágoa. Só por hoje, não vou pensar nisso. Só por hoje, não vou alimentá-la. Só por hoje, vou tentar tirá-la do meu corpo. Só por hoje, vou tentar fazer com que ela não seja a razão das minhas atitudes. Não sei se vou conseguir, porque ela está aqui ao meu lado. A frustração é muito grande, a vontade de ser surpreendida, de que o outro faça algo absolutamente maior é incontrolável. Como tentar não sentir o que se sente?

Sinto que preciso perdoar. A mim mesma, antes de mais nada. E ao outro. Não sei bem como fazer isso. Com o tempo, as mágoas arrefecem, mas isso não é perdoar, exatamente. É esquecer. Perdoar, me parece, demanda um processo ativo, positivo, de substituir uma paixão triste pela alegria do amor. Or something like that. Nada de cristão sobre isso, não me entendam errado. Não enxergo com clareza como fazer isso. Não enxergo mesmo. Sobretudo, não enxergo como perdoar, sem superar o outro. Sem fechar a ele os espaços dentro de mim. Isso também não é perdoar, obviamente.

A clareza do começo do post quer começar a se esvair. O pânico quer tornar a me dominar. Preciso me concentrar em ficar em paz. Não sei bem como…

Juba

junho 26, 2011



Juba

Originally uploaded by gomezzz

O que não foi feito

abril 11, 2010

Fiz um fettuccine alfredo neste sábado solitário. Simples demais (e zuuuper light!): a um trisquinho da água do cozimento, misturam-se manteiga e um pouco de creme de leite (diz que do fresco é melhor, mas eu só tinha o de caixinha) e parmesão ralado (do bom, por favor!). As medidas foram no olho. Ficou um espetáculo e demorou 10min, entre o cozimento da pasta (na verdade, um tagliatelle Barilla) e o molho, que não vai ao fogo, é feito apenas com o calor da massa.

Enquanto comia, me dei conta, com uma certeza possível apenas nessas horas, de que papai teria adorado comer esse prato feito por mim. Era o tipo de coisa que ele a-do-ra-va: uma comidinha assim gostosinha, mas simples, tarde da noite. Chego a ouvi-lo dizendo “oh, perrrrquena!…”, quando eu abrisse a porta do quarto, trazendo o prato prontinho numa bandeja. Esse momento não chegou a existir: cozinho há poucos anos e, quando ia a Fortaleza, dificilmente cozinhava, dada a existência da nossa fiel escudeira Adriana. Ele também não vinha a SP há muito tempo…

Comi feliz a minha comidinha, pensando nele, mas com uma pontada triste no coração… Tanto por fazer. Tanto por viver e ele se foi (há pouco mais de seis meses, inacreditavelmente). A vida se encaminha, mas não se passa um único dia sem que eu pense nele várias vezes. Inúmeras vezes, ainda fico confusa quando me lembro que ele já não vive. É como se fosse piada. É como se fosse impossível. Não faz sentido e talvez não faça nunca.

Logo que ele morreu, pensei nas coisas importantes que ele não mais chegaria a viver. Não levará ao altar sua filha (maiores possibilidades da mais nova, mas, vá…). Não conhecerá seus netos (se eles um dia vierem). Hoje, me ocorrem com freqüência as coisas mais banais que ele não vai fazer, como provar da minha comida. Como andar no carro que ele ajudou a comprar. Como visitar a irmã no Velho Mundo. Como ver o Flamengo hexa-campeão… E toda vez que lembro de mais alguma coisa que ele não vai mais compartilhar, a saudade dói um tantinho mais do que o habitual…

A volta dos que não foram

fevereiro 28, 2010

[Só para demarcar o território. De fato, tenho que admitir, entre Facebook, Twitter e blog de pesquisa, pouco sobre (não necessariamente tempo, mas interesse) para escrever aqui. Mas quando surge a vontade, melhor não contrariar.]

2010 começou e eu nem vi direito. A necessidade de mudança começa a gritar histericamente dentro de mim. Eu sou assim. Vou pensando com meus botões, buscando perguntas, olhando pra dentro e pra fora e, num belo momento, percebo que já se formou uma idéia… não, uma idéia, não, um sentimento, um estado impossível de ignorar. Vive-se em consenso e sem ruído por não sei quanto tempo, mas uma hora muda. Sei que é preciso mudar e não temer as mudanças. Sei que é preciso acolhê-las com coragem e generosidade. Sei que é preciso escutá-las.

Não quero mais não ser eu. Não quero mais fazer concessões. Quero o que quero. Que assim seja.

(Ui, um post bem críptico, hein? Bom, é assim que é. Ou não, sei lá, mil coisas…)

Nação Rubronegra

dezembro 8, 2009

Não parei de sorrir um segundo. Nem de pensar no MC (se ele voltasse ao mundo, por um milagre, ia ter é zé preu explicar pra ele: “ó, pai, então, sabe quem foi campeão brasileiro? Pois… foi o Flamengo!” Aí ele ia achar que tinha morrido e ido pro céu! Ai, ai…)

Hexa!!!

dezembro 7, 2009

Hexagera, Mengão!!!

Ah, se vocês soubessem a saudade que me deu do papai com essa (sofrida) vitória rubronegra hoje… É irônico demais que eu seja rubronegra por causa dele e que, agora, ele não esteja aqui para dividir comigo — ou eu com ele — o sexto título nacional do Flamengo. No último, eu tinha 17 anos (foi, portanto, há 17 anos!) e, conquanto importante, não foi a mesma coisa. 17 anos de sofrimento depois, que o diabo do time tenha finalente chegado lá, pouco mais de dois meses depois da morte dele, logo num domingo em que o Flamengo ganhou… dói demais.

A vida não tem a mais vaga lógica. Nós é que tentamos dar a ela algum sentido, às vezes, com algum sucesso. Tá muito claro. E eu, que não acretido em Deus ou qualquer coisa do gênero, me agarro desesperada àquilo que mantém meu pai vivo em mim. O Flamengo é uma das coisas mais fortes; agora, mais do que nunca. Sou flamenguista por ele: não tanto porque ele tenha me canonizado assim, deliberadamente, mas por puro amor de ver aquele flamenguista feliz quando o flamengo ganhava. Flamengo = alegria = amor, portanto. E muito cedo eu passei a amar, verdadeiramente, o rubronegro da Gávea.

O Zico foi um dos primeiros e maiores amores da minha vida. Taí a foto pra não me deixar mentir: eu devia ter uns… 6 ou 7 anos e lembro-me, ainda hoje, da alegria que foi tirar a foto com ele. Ele perguntou: “você torce pra que time?” e eu olhei pra ele e respondi, com uma cara de ‘dah!’: “Flamengo, ué!” Acho que ele esperava um “Ceará” ou “Fortaleza”, mas, ora… eu era Flamengo e o era de fato. Chorei de verdade quando o Zico foi vendido para a Udinese. Chorei de verdade quando ele foi tirado de campo numa maca na copa de 82. Chorei de verdade quando ele perdeu o pênalti em 86.

Meu pai era Flamengo porque foi criado no Rio. Quer dizer: filho de militar, nasceu no Mato Grosso do Sul e passou a primeira infância no Rio, torcendo pelo Fluminense (eu descobri isso aos 20 e tantos anos e quase morri do coração). Logo em seguida, vovô foi transferido para o Recife e papai se tornou fanático pelo Sport (na época, não havia Brasileiro). Quando voltou para o Rio, era um rubronegro tão fanático que não pôde voltar a ser tricolor, precisou converter-se flameguinsta e uma vez Flamengo… Quando eu nasci, anos depois, já não havia mais volta…

Quando a gente perde alguém tão próximo, as lembranças viram moeda rara. Uma das que cultivo é minha primeira ida ao Maracanã, em 1988, acho. Copa do Brasil ou algo assim, justamente um Flamengo e Grêmio. Fomos pras cativas de algum amigo do papai. Lembro-me bem dele, de blazer e camisa pólo, Ray Bans e tal. Subimos no elevador junto com o então técnico da seleção, Sebastião Lazaroni. Foi uma das pouquíssimas ocasiões na minha vida em que fiz algo apenas com eu pai. O Flamengo jogava pelo empate e perdeu de 2 x 0 (donde meu trauma com o Grêmio!). Jamais vou me esquecer da cara do papai, descendo de elevador, aos 40 do 2º tempo, me dizendo: “a gente ainda vai ouvir o grito de gol, ainda dá tempo…” Não deu. O Flamengo perdeu e foi desclassificado. Minha maior dor, contudo, mesmo naquele tempo, era a tristeza de vê-lo desapontado, por ter me levado ao Maracanã para ver uma derrota do nosso time…

Hoje, a saudade me dilacerou nesta vitória sobre o carrasco gaúcho. Se ele tivesse vivo, teria desligado a TV no gol do Grêmio. Teria tentando me convencer a desligar a TV também. Eu não desligaria (mas hesitaria) e acabaria ligando pra ele no gol do empate. Na virada, ligaria aos gritos e ouviria a voz dele meio contida, ainda desconfiada: “agora vai, agora vai!”. Quando o juiz apitou o fim do jogo, aos 48 minutos do 2º tempo, eu caí no choro (ainda deve ter gente achando que eu sou fanática!).

Flamengo campeão brasileiro, hoje, é a marca da ausência do meu pai no mundo. E a vida continua. Nunca mais a mesma, mas, tristemente, continua…

Stressed out

novembro 4, 2009

(Disclaimer: sim, este blog tá um desfile de lamentos, tristezas, reclamações, desabafos. Mal aê. Não estou assim porque quero. Desabafo aqui porque sinto que é um dos poucos canais que tenho — e se não desabafar, aí, sim, vou surtar de vez. E é um desabafo para mim mesma, antes de tudo. Qualquer público que angarie é lucro.)

Não sei como explicar isto de outra forma: estou muito perto de surtar. Pode parecer pouco — bem, talvez seja pouco, sei lá — mas 20hrs em sala de aula (mais sei-lá-quantas orientações e burocracias escolares, para dizer o mínimo) têm me esgotado física, psicológica e intelectualmente. Este é pelo menos o 4º semestre nessa toada, entre 4 e 6 disciplinas diferentes ao mesmo tempo, somando entre 16 e 20hrs semanais dentro de sala.

Vejam, não é apenas que 20hrs em sala de aula = por baixo, por muito baixo, outras 20hrs preparando aula, inventando aulas novas do nada, corrigindo trabalho, preenchendo diários e outras papeladas, selecionando trecho de filme… É que depois de 20hrs em sala de aula, mais outras 20hrs preparando aula, não tem como espremer mais nada da minha cabeça ou do meu corpo.

Daí que, este ano, eu não consegui emplacar um único artigo decente e, por conseqüência, não consegui ter motivo para pedir pelamordedeus às otoridade que me pagassem pra ir a pelo menos 1 dos 3 congressos de porte da área. Enquanto isso, aventureiros menos competentes emplacam textos, livros, viajam… E eu vejo o bonde passar, que é o que mais me agonia.

Porque se fosse uma questão de tempo, acho que não sofreria tanto. Se eu soubesse que este trabalho insano serviria para algo — e não apenas para acelerar a perfuração da parede do meu estômago com uma úlcera — eu respiraria fundo, tomaria vitaminas, faria uns cálculos estratégicos e seguiria adiante. Mas não é o caso: não há indícios de luz no fim do túnel at all, muito menos a curto prazo.

Não sei se aguento sequer mais um semestre assim. Ora, um semestre… Não sei se chego inteira ao final deste (porque, claro, ao final do semestre as coisas pioram e, além das aulas, há correção de trabalhos, bancas de TCC, relatórios de pesquisa — pesquisa dos outros, que fiquem bem claro — notas a dar, alunos que nunca pisaram em sala surgindo das trevas e reclamando isto ou aquilo…)!!!

Eu juro que tento não pensar nos meus colegas estrangeiros apenas 2 ou 3 anos mais velhos que eu e que, hoje, dão 8 horas em sala de aula por semestre, ganhando 3 ou 4 vezes mais que eu, com estabilidade, para pesquisar o que amam e, como conseqüência disso, viajar o mundo apresentando os frutos de seu labor. Juro que tento não pensar, mas é impossível e fico com a crescente sensação de que estou perdendo irremediavelmente o bonde da História. Pior: da MINHA História…

Tem que ter algum outro caminho, mas de fato não consigo enxergá-lo sequer vagamante neste momento. Acordo pensando em fazer pós-doc ou mesmo um novo doutorado fora do país; almoço (quando almoço) achando que o melhor caminho é fazer concurso para a UFC (se é que ainda haverá vagas) e janto (quando janto) sem saber mais se quero casar ou comprar uma bicicleta, de tão ansiosa e exausta que estou.

Pode parecer complicado de entender e eu vou dizer uma coisa bem boçal: eu não nasci para mediocriade. Leio as melhores publicações da minha área e tenho cer-te-za de que posso fazer igual ou melhor (inclusive, já fiz: quando tive condições para isso, emplaquei um artigo que foi eleito um dos 5 melhores do maior congresso internacional de games, onde eu era a única brasileira, ao lado apenas outras sulamericana; aliás, sabem o que aconteceu com a sulamericana? Emigrou pro Canadá e não dá 20hrs em sala de aula…). Mas pesquisar, escrever, pensar não é coisa que se faça com qualidade nestas condições. Não é trabalho braçal. Não é emprego, é vocação. E eu não sei mais o que fazer para conseguir a chance de seguir adiante com a minha.

Tenho tido com freqüência enxaquecas latejantes, estou com um buraco no estômago, uma possível síndrome do intestino irritado, tenho duas dúzias de exames a fazer (e sequer tenho tempo/disposição para isso!) e preciso apenas sobreviver até o fim do semestre (loooongo mês e meio) até poder desfalecer em solo cearense. Talvez eu devesse mesmo fazer concurso lá, mas também nem sei bem o que me esperaria: pelo último depoimento de um colega, soube que ele estava trabalhando horrores e ainda tinha que morar numa terra de referências culturais paupérrimas, que é algo que me põe em pânico (e a ela também!)… Pelamordedeus, entendam: não se produz pesquisa sobre arte no vazio. Já é complicado falar de games no Brasil, em Fortaleza, então… A única chance de alguém como eu sobreviver em Fortaleza é se sobrar muito tempo e dinheiro para viajar MUITO. Se não, é trocar seis por meia-dúzia e morrer de inanição cultural.

Sério. Muito sério. Deve ser complicado de entender que, para mim, cinema, arte, video games, literatura, festivais, livrarias muito, muito boas, acadêmicos de ponta em quantidade…não são apenas plus, são necessidades. Eu não vou à Mostra por hobby, eu pre-ci-so estar a par do estado da arte do audiovisual mundial. Eu não vou à Livraria Cultura apenas passear, eu vou esbarrar com um livro sensacional sobre algo que possa iluminar minha pesquisa. (Digo isto porque tenho percebido que é algo distante de pessoas até muito próximas. Gente que amo e admiro, mas para quem essas atividades ‘culturais’ não passam de lazer. Nada errado com isso, nada mesmo, mas tenho sentido falta de ter por perto amigos que compreendam melhor a minha vida e que, portanto, sejam capazes de entender o quanto ando sofrendo com essa mediocridade em que ando inserida forçosamente…)

Cut some slack

novembro 2, 2009

Se eu tivesse um cromossomo Y, vou te dizer como seria minha vida neste momento: estaria enfurnada na Mostra, como estão todos os meus amigOs cinéfilOs. Depois, iria beber cerveja e conversar sobre a Mostra com meus amigOs cinéfilOs.

As namoradAs cinéfilAs não estão enfurnadAs na Mostra. Elas estão indo nos almoços de família, estão acompanhando namoradOs não-cinéfilos em eventos diversos da vida, estão tendo uma vida razoável e ponderada. E, a melhor parte: ainda são chamadas de chatas quando não se dispõem a fazer isto ou aquilo. As (ex-)cinéfilAs com têm filhos, então… coitadas. São ex-cinéfilas. Imagina se é possível justificar para um filho — aquele ser cujos desejos são e devem ser o centro do planeta — que passar um fim de semana inteirando-se do que de melhor foi feito no cinema mundial é algo razoável e ponderado!…

Em horas como a desta constatação, percebo que devo ser A) um ser insuportável e/ou B) um ser muito diferente. Para qualquer um das opção, preferencialmente as duas, continuo sonhando com a possibilidade de achar Meu Lugar No Mundo. Um lugar onde, por exemplo, quando o XY fizer a cama e o café, isto não seja automaticamente considerado uma Bênção Dispensada À Humanidade, enquanto o fato d’a XX fazer o jantar seja Apenas Sua Obrigação. Ou onde seja possível as pessoas escolherem o que querem fazer, sem ter que pedir descupas pelo Desvio Da Normalidade. Deve existir esse lugar. (Talvez se chame Europa, não sei ao certo. E mesmo assim só em alguns recantos. Certamente nem a Itália nem a maior parte da Península Ibérica. Possivelmente também não certos países dos Bálcãs. Talvez Paris. Londres. Alemanha.)

Mas a maneira da mulher brasileira, cordata, razoável, ponderada, é a seguinte: ir tomar duas pílulas de stressdoron. Porque é óbvio que a errada sou eu. É óbvio que dormir e acordar tarde num feriado é coisa de gente doida. É óbvio que contemplar o desejo distante de ir à Mostra é um absurdo (vejam: eu sequer levantei essa alternativa; aí provavelmente jaz o meu erro). E, sobretudo, a culpada de todos os males num raio de 100km sou eu, porque estou na TPM, essa falha injustificável da natureza feminina, que deve ser, na melhor das hipóteses, *perdoada* pelos seres irrepreensivelmente superiores, os XY.

(E, não: eu não sou feminista)

Digra ’09 Proceedings

outubro 23, 2009

Já estão disponívels na Biblioteca Digital da Digra os proceedings da conferência deste ano. Comecei muito bem a leitura pelo artigo Experiential Narrative in Game Environments, de Gordon Calleja, que trabalha conceitos muito parecidos com os que eu trabalho, mas vindo por outra abordagem. É sempre bom encontrar alguém no mundo dos games studies capaz de ir além do debate vazio entre narratologia x ludologia. (Eu, contudo, tenho que dizer que boa parte do que ele trabalha ali é muito melhor e mais tranquilamente resolvido quando se parte de uma epistemologia semiótica, para quem a questão de um texto que se constrói na leitura já está pacificada há muito tempo, sem apelar para a dicotomia texto x leitor.)

Tempo

outubro 7, 2009

(As palavras não dão conta e só agora esta semioticista percebe. Não sei nem se faz sentido escrever no blog. Mas também não sou do tipo que encerra as coisas em arroubos. Nunca fui. Pelo contrário. E, mesmo sabendo que as palavras não dão conta, não tenho como fugir delas. Resta-me fabular. Ou não, não sei.)

A morte de alguém tão próximo fende a vida em duas. Isto é muito claro. Eu tinha uma vida, que cessou ao receber a notícia da morte de meu pai e deu lugar a outra. A imagem do momento em que recebi a notícia é a que mais tem recorrido esses dias. É fulminante. E a partir dela, começa a lenta construção dessa outra vida… Em que passo a carregá-lo comigo a cada segundo, para mantê-lo vivo, porque, sem ele, quem não vive sou eu. Tenho medo e me sinto só. (Ao mesmo tempo, todas as manifestações de carinho têm me comovido e me impedido de enlouquecer. Mas é triste reconhecer que nada resolve essa solidão que se criou aqui dentro de mim. E talvez nunca resolverá…)

Minha luta agora é para não cair em depressão. Não é uma luta qualquer (e quem tenta fazer dela uma luta qualquer não ajuda a quem luta. Ao contrário, atrapalha e muito). Já estava profundamente insatisfeita com algumas questões da minha vida, agora… Confesso que não sei onde buscar forças para não cair. E sei bem que, a despeito de tudo, não tenho o que reclamar da vida (tenho bons amigos, tenho uma grande família maravilhosa, vivi 34 anos ao lado de um pai maravilhoso, tive êxitos, pago minhas contas, sou amada, tenho — até onde saiba — saúde…), mas não cair não é fácil… (Como lutar contra a falta de vontade de lutar???)

Não sei bem o que fazer agora…